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Sobre o blogue

Para inaugurar este blogue, não importam alguns detalhes. As datas, os nomes, os pormenores particulares não têm valor. Tudo é real o que aqui disser. Mas sonho para que nunca tivesse que os contar.

Do que aqui partilho, guardo há mais de 2 anos. Altura na qual foi diagnosticada azoospermia. Logo conto o que isto é. Desde então a dor nunca passou, só teve momentos mais ténues. E hoje, após alguns fracassos, percebi que parte do que me consome é a solidão com a qual vivo este sofrimento. Uma dor enorme. Um desgosto tremendo. Um desprezo fervoroso. Um turbilhão que todos os dias escondo na relação que alimento, na esperança que quero transmitir e que desvanece quando estou sozinho. Quero ser um homem, mas nem isso me sinto. Em boa verdade não sinto nada. Nem já a mágoa consigo sentir. Parece que é dela que me alimento.

O blogue procura ser a minha janela. Que difícil foi decidir fazê-lo. Quantas vezes o comecei e deitei abaixo. Ora porque me doía ainda mais relembrar o processo, ora porque acredito que nada importa o meu sofrimento. E agora digo ao mundo que o começo. Mas a Flor não sabe. A Flor é a minha mulher. Ai e o que tenho para contar da minha mulher. Que é mágica. Que me fez deitar para o chão o rancor dos clichés porque foi com ela que percebi o que é um coração só, bater por duas pessoas! Mas falo dela mais à frente.
 

Parece que adio sempre o porquê deste blogue. E é verdade. Para quê? Que me vai trazer a mim? E a ti que o vais ler? A resposta parece simples, mas não é. Em verdade queria criar um espaço de partilha.

Se fores mulher, sabe que o teu marido - se suspeita ou se está diagnosticado com infertilidade - vai fazer buscas e buscas incessantes ao querido Google à procura de respostas. Vai sentir-se um merdas, sem valor, sem chão. Se também partilhas a dor dele e/ou vives com o mesmo drama da infertilidade, então já deves saber que o Google parece - na sombra - o nosso maior confidente. 

Mas para ti - mulher - vais encontrar uma série de fóruns e de blogues que te vão acalmar a mágoa. Vais ver-te e rever-te na dor das outras mulheres. Vais começando a descobrir este mundo e a sentires que são tuas amigas. Depois outras partilham que entretanto já conseguiram ser mães e vais ter sempre essa réstia de esperança.

Mas ele... ele está no lodo. Primeiro não quer acreditar porque sempre esteve tudo bem. E depois. Bem depois... nem ele saberá o que lhe passa pela cabeça. Solidão.

Este espaço é para ti, homem, e para ti, mulher, que foram abalroados a meio dos vossos sonhos. Mas é mais para ele, homem, que não encontra, no escuro desta travessia, um amigo, um confidente. Nem o Google o ajuda. Não existem. Nunca encontrei - em português - um blogue a dar o testemunho de um homem infértil, como uma mulher o partilha. Não estou a medir a dor de género. Estou a dizer que é para ti (ou para ele) que a partir de hoje estou aqui.

Não vai ser fácil. Digo-te desde já. Mas no fundo, há sempre um "A", de Acreditar! Pelo menos agora estamos mais perto.
Até já...   

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