Avançar para o conteúdo principal

O Dia em que Mundo parou...

Sei que me vais perceber. Os primeiros "sintomas" são irrelevantes. Porquê? Porque raramente existem. Até que o tempo vai passando.


Cenário 1: Primeiro tudo começou por achar que simplesmente "não acertavas" no tempo certo! Ias aos "treinos", ouvimos isso muitas vezes. Insistes, sem pensar nisso. Depois o tempo vai passando. E começas a por regras para ir aos treinos. Ficas de rastos porque repetes vários dias. Várias vezes ao dia? Quem sabe... o tempo passa e não há notícias. As mulheres dizem que "veio red". Significa que o período voltou. "Más notícias"! Quando mais te afastas do tempo "razoável" mais ansioso ficas. Chegas a fazer sexo sem prazer. Já só te concentras "naquilo". É mecânico, será?

Cenário 2: Ou então estás a pensar: OK, não foi nada disso. Nunca me passou pela cabeça ter qualquer problema. masturbo-me desde os 13 anos? Se não foi já ensaiava. Ejaculo, tenho prazer, libido no auge. Vi filmes pornográficos uns atrás dos outros e até brinquei com os "meus primos" e com os colegas de balneário. Nunca vi nada de anormal. Tudo funciona. Claro que o problema não é meu!



Diz-me a verdade, andei longe do que pensaste?
Depois a medo lá decidem ir ao Google. Sim, é ele o primeiro confidente dos nosso receios. E até lhe dizes baixinho: só vou ver se encontro alguma coisa, mas de certeza que está tudo bem. É apenas para despistar.

O tempo passa e lá se ganha a coragem de procurar ajuda médica!
Pessoalmente, confesso que até tenho vergonha. Nem fazia a ideia de que havia a consulta de infertilidade. Tal é o estigma. Nem especialidades que se dedicam em absoluto ao órgão reprodutor masculino. Quem se lembraria disso: nós fomos feitos para "crescer e multiplicar", disse-nos Ele.

Mas assim não foi. Consulta marcada. Hospital dos Lusíadas em Lisboa. "Procriação Médica Assistida"! Que medo. Mas quem é que precisa disso? Porque havemos nós de ir a essa especialidade? A Flor é mais racional. Sim, o melodramático nesta relação sou eu. Maricas. O que hão-de dizer os homens e as mulheres com quem te irás cruzar? Que absurdo: se lá estão... Sim, mas eu sou homem, certamente que o problema será da Flor, é o que eles todos vão pensar!

Consulta. Logo vos conto como foi!
Exames para a Flor, em primeiro lugar. Passados meses, exames para mim...
Espermograma! WHF!?
Nojo. Era só o que me lembrava. Ir masturbar-me para uma cabine... Regressei anos à adolescência. Até tinha canais porno! Mas foi doloroso.

O resultado veio nas mãos da Flor. Não abriu. Faz parte da nossa conduta: correspondência de cada um para cada um. Abri à frente dela! Não percebi à primeira. Não havia resultados... não havia números. A densidade era boa e mais não sei o quê! Mas espermatozóides não. "traços" em vez de números. O que é isto!? Bloqueei. Deve ser engano. Há um problema. Pensei. Não, mentira, não pensei nada.

Congelei. O Mundo parou. A minha cabeça rodou. Ia explodir no momento em que percebi o que se tratava. Ainda hoje estremeço.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A primeira consulta de infertilidade

Não sabíamos como lá chegar. Nem sequer sabíamos que especialidades tratam destes problemas. Nem sequer sabíamos que havia consultas especializadas para problemas de fertilidade. E o que tenho a dizer sobre esta ignorância assumida: é que éramos, sem dúvida, muito mais felizes até então. Desconhecer, era, portanto, sinal de não precisar. E fomos felizes até esse momento.

Cemeare: próxima paragem, próxima esperança

A clínica e a Dra. Maria José Carvalho tinham sido recomendadas pela Dra. Ana Paula Maia, nos Lusíadas. Uma grande especialista, com anos de formação e experiência em países nórdicos, os mais avançados nestes tratamentos. Mas em breve iriamos descobrir que no meio deste processo o que precisas vai além de um bom médico: precisas também de um bom ser humano e de uma equipa - desde a receção - que te saibam compreender e dar respostas mesmo quando não fazes perguntas...

O homem do lado era afinal fértil

Sim. Nada faria prever. Nem ele imagina que ainda lhe conheço o rosto. Se ele soubesse deveria achar que sou apanhado por "homens". Mas decorei-lhe o rosto. Era rude, machista. Não sei. Mas que era autoconfiante lá isso era. E teve razões para isso.