Sim. Nada faria prever. Nem ele imagina que ainda lhe conheço o rosto. Se ele soubesse deveria achar que sou apanhado por "homens". Mas decorei-lhe o rosto. Era rude, machista. Não sei. Mas que era autoconfiante lá isso era. E teve razões para isso.
Ricardo. Era o nome verdadeiro dele. Fomos chamados às 9 horas na receção das consultas de Procriação Médica Assistida dos Lusíadas. Depois entrámos num espaço mais reservado. Como se fosse para nos esmagarem com a vergonha de termos este problema. Eu e ele, a Flor e a mulher do Ricardo, que não sei o nome. Dois casais, dois destino certamente diferentes.
Ainda hoje penso se ele já será pai. Será certamente. Confiançudo. Nada abalou a confiança.
Demorou, mas lá nos chamaram. Separámo-nos. Só havíamos de nos cruzar novamente nas salas improvisadas de recobro. Lembro-me das luzes e da sala fria aonde iriam realizar a biópsia. Esta ditara o veredicto da azoospermia: sim ou sopas. Para mim foi sopas. Foi tudo tranquilo. Não vi o médico muito tempo antes. Só me lembro de ele me dizer, pouco antes de adormecer com a anestesia, que seria fácil e rápido, 15 a 20 minutos e saberia o meu destino.
Quando comecei a acordar lembro-me apenas de abrir repentinamente os olhos e querer fugir da maca. Tentei levantar-me, mas os enfermeiros imediatamente me prenderam aos lençóis. Estava agitado, pronúncio. Perguntei como tinha corrido: pensei que era na hora. Afinal o médico disse 15 a 20 minutos e tinham passado mais de 20.
Não sabia, mas só daí a 2 horas viria a médica. Foram duas horas de dor. Ansiedade consomia-me o estômago, tremiam-me as pernas, secava-me a garganta. Tinha razão para isso. As análises hormonais já davam pistas... E eis que ouço a porta abrir. O espaço era amplo e nesse momento já só estava: eu e o RIcardo e um outro casal que acabra de saber que não conseguira obter qualquer óvulo em mais uma punção. Ela chorava. Ele fazia-se de duro. E nós ouvíamos tudo. Um horror.
Vem a médica, Dra. Ana Paula Maia. Em voz suficientemente alta - não que fosse preciso porque estavamos separados por cortinas - Ricardo ou Bernardo? Ricardo, respondeu ele. Ok. Disse a médica. Tenho boas notícias. Conseguimos recolher uma boas amostra de espermatozóides. São boas notícias. Vestiu-se e foi embora como quem acabou de ir tirar sangue para umas análises.
E pareceu-me que havia uma má notícia.
Ora então aqui é o Bernardo. Certo?
Pois... sem demoras... não temos boas notícias. Não conseguimos identificar qualquer amostra de espermatozóides. Faremos um balanço deste cenário na próxima consulta.
Só queria fugir. Sustentei as lágrimas até chegar a casa...
E não houve próxima consulta. O destino estava traçado.
Hoje vou-me lembrando do Ricardo. De como estará feliz com um filho que ainda não tenho. Talvez tivesses sorte se o Ricardo escrevesse também um blogue para contar a parte dele. É certamente mais positiva que a minha. Mas o Ricardo não deve ter tempo. Porque o passa já com os filhos, é homem, viril e certamente bem-sucedido. Pode até não ser nada disto, mas é tudo aquilo que eu não sinto ser. Porque deixei de sentir muita coisa.
Ricardo. Era o nome verdadeiro dele. Fomos chamados às 9 horas na receção das consultas de Procriação Médica Assistida dos Lusíadas. Depois entrámos num espaço mais reservado. Como se fosse para nos esmagarem com a vergonha de termos este problema. Eu e ele, a Flor e a mulher do Ricardo, que não sei o nome. Dois casais, dois destino certamente diferentes.
Ainda hoje penso se ele já será pai. Será certamente. Confiançudo. Nada abalou a confiança.
Demorou, mas lá nos chamaram. Separámo-nos. Só havíamos de nos cruzar novamente nas salas improvisadas de recobro. Lembro-me das luzes e da sala fria aonde iriam realizar a biópsia. Esta ditara o veredicto da azoospermia: sim ou sopas. Para mim foi sopas. Foi tudo tranquilo. Não vi o médico muito tempo antes. Só me lembro de ele me dizer, pouco antes de adormecer com a anestesia, que seria fácil e rápido, 15 a 20 minutos e saberia o meu destino.
Quando comecei a acordar lembro-me apenas de abrir repentinamente os olhos e querer fugir da maca. Tentei levantar-me, mas os enfermeiros imediatamente me prenderam aos lençóis. Estava agitado, pronúncio. Perguntei como tinha corrido: pensei que era na hora. Afinal o médico disse 15 a 20 minutos e tinham passado mais de 20.
Não sabia, mas só daí a 2 horas viria a médica. Foram duas horas de dor. Ansiedade consomia-me o estômago, tremiam-me as pernas, secava-me a garganta. Tinha razão para isso. As análises hormonais já davam pistas... E eis que ouço a porta abrir. O espaço era amplo e nesse momento já só estava: eu e o RIcardo e um outro casal que acabra de saber que não conseguira obter qualquer óvulo em mais uma punção. Ela chorava. Ele fazia-se de duro. E nós ouvíamos tudo. Um horror.
Vem a médica, Dra. Ana Paula Maia. Em voz suficientemente alta - não que fosse preciso porque estavamos separados por cortinas - Ricardo ou Bernardo? Ricardo, respondeu ele. Ok. Disse a médica. Tenho boas notícias. Conseguimos recolher uma boas amostra de espermatozóides. São boas notícias. Vestiu-se e foi embora como quem acabou de ir tirar sangue para umas análises.
E pareceu-me que havia uma má notícia.
Ora então aqui é o Bernardo. Certo?
Pois... sem demoras... não temos boas notícias. Não conseguimos identificar qualquer amostra de espermatozóides. Faremos um balanço deste cenário na próxima consulta.
Só queria fugir. Sustentei as lágrimas até chegar a casa...
E não houve próxima consulta. O destino estava traçado.
Hoje vou-me lembrando do Ricardo. De como estará feliz com um filho que ainda não tenho. Talvez tivesses sorte se o Ricardo escrevesse também um blogue para contar a parte dele. É certamente mais positiva que a minha. Mas o Ricardo não deve ter tempo. Porque o passa já com os filhos, é homem, viril e certamente bem-sucedido. Pode até não ser nada disto, mas é tudo aquilo que eu não sinto ser. Porque deixei de sentir muita coisa.

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