Avançar para o conteúdo principal

Infertilidade não é coisa de homem

A sociedade fez-nos assim: doces e cruéis! Criou estereótipos; estimulou a diferença; cultivou um padrão comum de "normalidade" e gerou preconceitos. Um dos mais fortes resiste: a virilidade!

Quando estamos bem, apenas queremos ser perfeitos. Quando nos deparamos com problemas de infertilidade, apenas nos queremos sentir homens. Porque será?
Este não é uma das minhas maiores dificuldades. Mas percebi que algo se passa nesta matéria. Ser infértil tem um peso esmagador. Socialmente nem sabemos qual será a reação, até porque na maioria das vezes vamos viver com este segredo para sempre. Ou quase sempre, dependendo da nossa capacidade de dar desculpas para o facto de ainda não termos a família alargada, sempre que nos perguntam naqueles jantares de amigos ou nas reuniões de família. Mas a minha procura em cerca de 2 anos, revela que o nosso amigo Google não tem muito para nos dizer a nós homens. Os blogues multiplicam-se entre a comunidade feminina que discute inclusive os nosso problemas particulares, mas entre "nós", as oportunidades de partilha são inexistentes. Se quisermos encontrar referências em castelhano ou brasileiro... o cenário muda. mas no nosso retangular Portugal: silêncio absoluto.

As pressões sociais, os padrões culturais, as premissas de sucesso do ser humano... fazem com que queiramos ter sempre uma imagem perfeita. Mesmo que não seja como o rapaz da imagem, pelo menos que ninguém - nem a própria mulher - ponha em causa a nossa virilidade. Sou infértil, e então? Então... lamento dizer, mas nada será como antes. Não é algo que tenhas coragem de dizer num jantar de amigos, quando surge uma piada, uma conversa, uma gracinha. Mesmo que digas, ninguém vai perceber a profundidade do assunto. Acham que é uma "cena tranquila!. Afinal não é um cancro! Vê lá tu a sorte!

Os homens não choram, os homens não gritam, os homens não dramatizam, os homens não são sensíveis, os homens não são emotivos... os homens só podem ser o que lhes disserem para ser? Não. Os homens sofrem, choram, não dormem, inquietam-se, questionam-se, isolam-se, suicidam-se, desesperam, devaneiam, desistem. Os homens fazem isso tudo. Até cantam sozinhos no carro, no duche. Alguns até têm prazeres obscuros que não conseguem partilhar com a sua mulher. Outros amam a sua mulher, mas excitam-se igualmente com um homem. Outros até vão à missa e consomem horas de porno online. Outros vão morrer sem nunca realizar os seus fetiches. Outros masturbam-se vezes e vezes sem conta, mas porque lhes dá prazer que uma relação não dá. Os homens são o que lhes dizem, e oprimem o que lhes dizem não poderem ser. Esse limite faz a diferença entre uma vida plena e realizada ou uma frustração colossal.

A infertilidade é uma machadada na nossa personalidade. Uma perda. Uma incapacidade. Uma doença. É isso tudo, mas sem a possibilidade de podermos dizer ao mundo e de chorarmos em frente a ele. Perdoem-me todas as mulheres porque nunca soube o que isso é, mas posso sentir a infertilidade como perder um peito. É uma perda de identidade. Uma fatalidade. Nunca mais será o mesmo. E depois, esta merda de sermos todos muito machos, faz com que nos fechemos. O coração estremece sozinho; a noite é nossa parceira de insónias; o carro é um refúgio antes de chegar a casa; a masturbação chega para aliviar a dor, não há prazer. É só para aliviar a tensão. Literalmente a tensão. Porque às tantas já nem sexo queres ter. És um inútil, um traste, um farrapo. Não és homem suficiente para a tua mulher. Pensas até que ela nem te merece. Passa tempo, e até pensas que seria bom dar uma "escapadinha" com alguém que não te conhece sem saber o problema que tens: seja homem ou mulher. Não importa, à frente deles continuas a ser um macho latino, se é isso que significa "ser homem".

Se não pensas, melhor. Se for tudo ao contrário do que eu sinto, fico feliz por ti.   

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

A primeira consulta de infertilidade

Não sabíamos como lá chegar. Nem sequer sabíamos que especialidades tratam destes problemas. Nem sequer sabíamos que havia consultas especializadas para problemas de fertilidade. E o que tenho a dizer sobre esta ignorância assumida: é que éramos, sem dúvida, muito mais felizes até então. Desconhecer, era, portanto, sinal de não precisar. E fomos felizes até esse momento.

Cemeare: próxima paragem, próxima esperança

A clínica e a Dra. Maria José Carvalho tinham sido recomendadas pela Dra. Ana Paula Maia, nos Lusíadas. Uma grande especialista, com anos de formação e experiência em países nórdicos, os mais avançados nestes tratamentos. Mas em breve iriamos descobrir que no meio deste processo o que precisas vai além de um bom médico: precisas também de um bom ser humano e de uma equipa - desde a receção - que te saibam compreender e dar respostas mesmo quando não fazes perguntas...

O homem do lado era afinal fértil

Sim. Nada faria prever. Nem ele imagina que ainda lhe conheço o rosto. Se ele soubesse deveria achar que sou apanhado por "homens". Mas decorei-lhe o rosto. Era rude, machista. Não sei. Mas que era autoconfiante lá isso era. E teve razões para isso.